quarta-feira, 20 de julho de 2016

uni_verso

quero ir como quem nunca chega
e, com o tempo previsto,
deixar na sua memória
a saudade de amanhã:
ser de imprevisto.

página em branco
esperando o momento de ser lida,
tristeza amanhecida
em meio a um céu entrecortado.
o que ainda não foi encontrado,
talvez, o subentendido.

quero ir como quem nunca soube se foi, de fato, ou continua por aí:
fragmento de um poema
pigmento
cenas de um velho dilema
anjo que dorme ao relento
estratagema
ou paz anunciada com o novo rebento.

embarcação à deriva avistando um porto
quiçá, o rosto seu.
e, mesmo roto,
recolorir o céu com o que há de tons do arco-íris que não se desfez,
ainda que já tenha passado o tempo de toda a chuva.

quero ir como quem sempre esteve aqui
e, desapercebido, foi recebido com todo o nada.
feito um pedaço, dos mais de mil pedaços, da torre de babel,
quero ser parede limpa
esperando por lâminas, multicoloridas, de papel,
que exerça a função de tinta:

por um prego que segure todo o peso do dia
por um quadro que não revele minha agonia
por um esquadro que, de mim, não se despregue, ainda que seja necessário,
nem me coloque na linha reta e severa, porque tal feitio já não mais me alegra.

quero ir como quem nunca veio
como quem acha fraco, feio, preciso e doloroso:
conter certos risos, sentenciar algumas palavras e, até, ficar calado.

como quem colhe flores e as guarda em gavetas escuras 
até que todas elas sequem, uma por uma,
e por medo do rótulo de ridículo
recomenda o preto, ou branco, preterindo tudo aquilo que seja estampado.

quero ir de forma simples, determinada, oculta e concreta. 
como quem, muitas vezes, foi deixado de fora

e, ininterruptamente, de lado. 

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